Do Tropeço Diante do Villa ao Desafio Final: O Que Esperar do Brentford Contra o Histórico Palace de Glasner

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O apito final no Gtech Community Stadium sacramentou um 1 a 0 amargo a favor do Aston Villa, deixando o Brentford com aquele gosto de que o resultado poderia, e talvez devesse, ter sido bem diferente. O roteiro do jogo foi marcado por um volume absurdo de posse de bola dos donos da casa, que beirou os 60%, mas esbarrou em uma muralha defensiva e em um pouco de azar. A partida já começou a mil por hora e logo aos cinco minutos a torcida levou um susto quando Morgan Rogers balançou as redes, lance que acabou anulado pelo VAR por conta de um impedimento de Ollie Watkins após o passe de Jacob Ramsey. Apenas dois minutos depois, porém, não teve jeito: um contra-ataque letal do Villa terminou nos pés canhotos do próprio Rogers, que cravou o único gol da partida no meio da área.

A partir daí, o que se viu foi um verdadeiro bombardeio do Brentford, que dominou as ações do segundo tempo, mas não conseguiu furar a retranca. Christian Nørgaard tentou de todas as formas — da entrada da área, do meio, de esquerda, de direita —, mas teve uma sequência frustrante de finalizações bloqueadas. Kevin Schade até exigiu boas defesas, enquanto Bryan Mbeumo desperdiçou uma baita chance pela direita após cobrança de escanteio. A bola que mais doeu na torcida, no entanto, foi o chute de Keane Lewis-Potter que carimbou a trave esquerda. O nervosismo bateu, resultando em cartões amarelos por entradas duras de Kristoffer Ajer e Nathan Collins. O Villa, satisfeito com a vantagem, aproveitou para rodar o elenco e colocar fôlego novo em campo, acionando nomes de peso do banco como Marcus Rashford, Donyell Malen e Boubacar Kamara para segurar o ímpeto e amarrar o jogo até os acréscimos.

Essa ressaca da derrota, no entanto, precisa ser digerida rápido. O time treinado por Keith Andrews ainda está na briga pela sua melhor campanha na história da Premier League e caça uma sonhada e inédita vaga em competições europeias. E o palco para a cartada final diante da sua torcida na temporada 2025/26 será neste domingo, contra um Crystal Palace que vive um dos anos mais bizarros e intensos que o futebol inglês já presenciou em muito tempo.

Para entender o tamanho da pedreira, é preciso olhar para a montanha-russa que se tornou o Palace desde a chegada do técnico austríaco Oliver Glasner. Eles se consolidaram na elite inglesa nos últimos anos, mas ultimamente chutaram a porta para o protagonismo. Vem na bagagem o título histórico da FA Cup em cima do todo-poderoso Manchester City na última temporada, seguido pelo troféu da Community Shield. A expectativa estava nas alturas, mesmo depois de venderem a estrela Eberechi Eze a peso de ouro para o Arsenal no verão e perderem o capitão Marc Guéhi para os próprios Cityzens na janela de janeiro.

Só que o inverno londrino cobrou um preço pesado. A equipe de Glasner, que chegou a flertar com o quinto lugar em dezembro, desmoronou vertiginosamente. Foram atropelados por 4 a 1 pelo Leeds, caíram fora da Carabao Cup nas quartas para o Arsenal e protagonizaram aquele que talvez seja o maior vexame da história recente do futebol inglês: a eliminação na terceira rodada da FA Cup perdendo de 2 a 1 para o Macclesfield, uma equipe de fora das ligas profissionais. O clima pesou a tal ponto que, em meados de janeiro, Glasner anunciou que faria as malas e deixaria o Selhurst Park no final da temporada. O mais louco de tudo isso é que, mesmo em meio ao caos e com a permanência na elite já garantida, o Palace está na final da Europa Conference League, que disputará no final do mês contra o Rayo Vallecano. É a definição de um time imprevisível.

Quando a bola rolar no domingo, o Brentford vai topar com um adversário que gosta de picotar o jogo e tem números defensivos que assustam. Mesmo com a perda de Guéhi, o Palace ostenta 12 jogos sem sofrer gols no campeonato; apenas a dupla de ferro Arsenal e City tem defesas mais sólidas. Eles costumam fechar a casinha com maestria nos 15 minutos iniciais, sofrendo míseros quatro gols nessa faixa de tempo na competição inteira. A instrução de Keith Andrews para o elenco provavelmente será de ter paciência para não se frustrar logo de cara, sabendo que os jogos do Palace costumam pegar fogo pouco antes do intervalo, período em que se concentram 35% de todos os gols de seus jogos, tanto pró quanto contra.

E se a defesa adversária é cascuda, o ataque é um caso a ser estudado pela ciência de dados. Nenhuma equipe das cinco principais ligas da Europa desperdiçou tantas chances claras nesta temporada quanto o Crystal Palace. Eles carregam uma bizarra deficiência de 21.86 gols em relação ao seu xG (gols esperados), marcando apenas 37 vezes quando a métrica apontava quase 59. Falta instinto assassino lá na frente — uma dor de cabeça que, ironicamente, eles compartilham com seu futuro rival na final europeia, o Rayo Vallecano.

O duelo vai acabar se desenhando como um choque tático bruto. De um lado, um Brentford que já puniu muito os adversários nesta temporada, sendo um dos líderes de gols em contra-ataques na liga. Do outro, um Palace que ainda não conseguiu balançar as redes nenhuma vez em jogadas de transição rápida. Se os donos da casa conseguirem forçar um jogo lá e cá, acelerando o ritmo para quebrar a solidez posicional da equipe de Glasner, têm tudo para apagar a frustração do último jogo e fechar o ano diante da sua torcida do jeito que essa temporada histórica merece.