Foto: arquivo pessoal

Atletas do DF se preparam para brilhar nos jogos Paralímpicos de Tóquio

Os jogos Paralímpicos de Tóquio, no Japão, serão realizados em 2021, mesmo durante a pandemia de covid-19, doença que já matou quase 4 milhões de pessoas no mundo e mais de 450 mil no Brasil. O evento deveria ocorrer em 2020, mas foi adiado para este ano devido à crise sanitária causada pelo vírus.

Faltando 90 dias para a abertura da competição, marcada para 24 de agosto, o país-sede tem menos de 2% da população totalmente vacinada, o que revolta a opinião pública do país, que segundo a imprensa local, tem se manifestado contra a realização dos jogos. Em contrapartida, o Comitê Organizador das Olimpíadas de Tóquio afirma que os eventos olímpico e paralímpico terão quase o dobro de médicos em relação ao plano original.

Em meio à “turbulência” na organização, a contagem regressiva para a Paralimpíada segue avançando a cada dia e, com ela, também aumenta a expectativa de atletas em poder representar o Brasil em uma competição internacional.

Potência em esportes para pessoas com deficiência, o Brasil deve reunir 230 atletas em 20 modalidades para buscar a 100ª medalha de ouro nos jogos Paralímpicos — faltam apenas 13 para alcançar a marca. Os atletas brasileiros conquistaram 112 pratas e 102 bronzes ao longo da história da competição, que teve início logo após as Olimpíadas de Roma, em 1960.

Com o sonho de integrar a seleção do país no maior evento do esporte mundial, esportistas do Distrito Federal têm se mantido firmes na luta para driblar as dificuldades impostas pelo novo coronavírus. Atletas brasilienses convivem com a falta de competições e, com o fechamento de centros de treinamentos, tiveram de redobrar o esforço para manter o alto nível.

Coração brasileiro

Desde o início da pandemia no Brasil, em março de 2020, o Governo do Distrito Federal passou a adotar medidas para tentar conter a disseminação do vírus em Brasília. Decretos que determinavam o isolamento social da população, o fechamento do comércio e de pontos não essenciais se tornaram rotineiros na capital do país.

Inclusos nas restrições do governo, boa parte dos Centros Esportivos do DF precisaram fechar as portas. Como consequência disso, esportistas de Brasília precisaram inovar e procurar outras formas para seguirem com a preparação em suas modalidades.

Medalhista no ParaPan de Lima, no Peru, em 2019, a atleta de parabadminton Daniele Souza (foto em destaque), de 28 anos, treina em casa há mais de um ano. Isso porque, segundo ela, além do receio de se expor ao risco de contágio pelo novo coronavírus, os locais onde costumava treinar, no Centro de Iniciação Esportiva (CID), na cidade de Taguatinga, fecharam, o que tornou o contato com as quadras inviável.

Com a ajuda de um personal trainer, Daniele passou a se dedicar aos treinos de segunda a sexta, sonhando com a chance de voltar a representar o Brasil. No curto espaço disponível em seu quintal, a atleta faz exercícios de fortalecimento, movimentação na cadeira de rodas e também pratica com raquete e peteca simulando ações de jogo.

Caso seja convocada, ela estreará junto com sua modalidade, que estará presente pela primeira vez em jogos Paralímpicos. A brasiliense se enquadra na classe Wh1, categoria do parabadminton em que os jogadores atuam em cadeiras de rodas.

É o reconhecimento do seu trabalho. Ser convocado mostra que você está no caminho certo e, consequentemente, te motiva a seguir em frente e se dedicar ainda mais. Tenho certeza que os atletas de parabadminton representarão muito bem o Brasil. Participar de algo assim [Paralimpíadas] é surreal. É incrível. Não tem sentimento que consiga explicar a emoção.

Daniele Souza

Reforço voluntário e auxílio do governo

Assim como o personal trainer de Daniele, outros profissionais da educação física estão se dedicando à preparação dos atletas paralímpicos para a disputa dos jogos em Tóquio. Esse é o caso do educador físico Gabriel Goulart, de 35 anos, que é voluntário no treinamento de jogadoras de goalball, modalidade para pessoas com deficiência visual onde o objetivo é fazer gols no adversário manuseando uma bola adaptada com guizo.

Goulart trabalha há 10 anos com esportes para pessoas com deficiência física e atuava como professor no Centro Olímpico (CO) da cidade de São Sebastião. Durante a pandemia, como consequência da paralisação das aulas, ele ficou desempregado ainda em 2020.

Apesar da frustração da demissão, o treinador se propôs a continuar, de forma voluntária, com a preparação do ciclo olímpico da equipe goalball da unidade, composta por 12 jogadores. Nos primeiros meses, Gabriel Goulart conta que precisou adaptar os treinamentos para o sistema virtual, já que o CO estava com as portas fechadas.

Eu tive uma conversa por vídeoconferência com o grupo para entender o que eles estavam pensando sobre o momento [na pandemia]. Depois de ouvir cada um, conversei individualmente com eles e a ‘tecla’ que eu mais usei foi a questão de Deus, de ter fé, esperança e de não deixar o medo abalar, porque os momentos difíceis também podem servir como aprendizado.

Gabriel Goulart

Após meses trabalhando com o elenco de forma online, em 2021, o educador físico conseguiu liberação para utilizar os espaços e os materiais do Centro Olímpico de São Sebastião. A dedicação do treinador também foi recompensada pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), que passou a ajudá-lo financeiramente em fevereiro deste ano, para que continuasse aplicando os treinos.

Segundo o preparador, para evitar aglomeração e proporcionar mais segurança ao elenco, os treinamentos passaram a ser realizados em duplas, em dias e horários diferentes da semana. Durante as atividades, Goulart ressalta que usa a meditação como um dos métodos para trabalhar o psicológico dos atletas e para tentar controlar a ansiedade aflorada pela pandemia e em relação aos jogos de Tóquio.

Entre os atletas treinados por Gabriel Goulart, estão as jogadoras Kátia Aparecida, de 27 anos, e Jéssica Victorino, de 25, que defendem o time do Cetefe-DF e integram a seleção brasileira de goalball. Moradoras de Águas Claras e Paranoá, elas chegam a percorrer, juntas, mais de 58 quilômetros para comparecerem aos treinos em São Sebastião.

Gabriel Goulart, comemorando título com a equipe de goalball. Foto: arquivo pessoal

De acordo com o educador físico, a locomoção é possível graças ao passe livre, — cartão concedido pelo governo, que garante isenção da passagem em dinheiro nos transportes públicos. Além desse auxílio, segundo o treinador, as duas jogadoras, assim como Daniele Souza, também recebem o benefício Bolsa Atleta, que as ajuda financeiramente com base em suas classificações no esporte paralímpico e dos níveis da modalidade, conforme a legislação vigente.

Com o ciclo de preparação para as Paralimpíadas chegando ao fim, o professor revela que já estava com o “coração explodindo de emoção”, na expectativa pela convocação das atletas do Distrito Federal para a disputa dos jogos em Tóquio. No último final de semana, o técnico da seleção brasileira feminina de goalball, Dailton Freitas Nascimento, conformou as presenças de Kátia e Jéssica no grupo que vai representar o Brasil no Japão com seis jogadoras.

Vacinação de atletas

Uma das medidas tomadas pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), que organiza as Olimpíadas e Paralimpíadas de Tóquio, foi promover a vacinação de atletas que vão participar dos jogos. O Ministério da Saúde, o Ministério da Defesa e o Comitê Olímpico Brasileiro entraram em acordo e aceitaram receber a doação de vacinas pelo COI para imunizar cerca de 1.814 pessoas que farão parte das delegações brasileiras olímpica e paralímpica.

O trato entre o Comitê Olímpico Internacional e o governo brasileiro foi que, para cada dose aplicada em membros das delegações, duas serão doadas ao Sistema Único de Saúde (SUS). O primeiro a receber a primeira vacina no Brasil, no dia 14 de maio, foi o judoca paralímpico Antônio Tenório, que se recuperou da covid-19 após passar 17 dias internado na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). 

No Distrito Federal, o grupo de 41 pessoas com atletas olímpicos e paralímpicos e comissões técnicas que vão representar o Brasil em Tóquio foi vacinado em 18 de maio no Hospital Militar de Área de Brasília (Hmab). Ainda na espera de uma convocação, Daniele Souza recebeu a primeira dose em 10 de maio, por se encaixar na lista de prioridades que enquadra pessoas com comorbidades.

“Fiquei muito feliz. Nunca imaginei que ficaria tão empolgada em tomar vacina”, diz a jogadora de parabadminton. “Mas os tempos mudaram e essa faz gosto de tomar”, comemora.

Por outro lado, na avaliação da assessora de comunicação do Comitê Brasileiro de Clubes Paralímpicos (CBCP), Gisliene Hesse, a realização da Paralimpíada está “totalmente fora do contexto social”. Apesar de destacar sua paixão pelo esporte, ela pondera que é difícil torcer por um atleta quando, no Brasil, ainda convivemos com alto número de mortes diárias por covid-19.

“Não sou a favor que ocorram os jogos Olímpicos e Paralímpicos, mas já que eles vão ocorrer, é preciso que nossos atletas e delegações estejam imunizados para tal. Não dá para ser irresponsável [com esses esportistas] como o governo do Brasil está sendo com a população toda”, acentua a jornalista.

Segundo o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, o Brasil deve receber 4.050 doses da vacina produzida pela Pfizer e 8 mil doses da Coronavac. De acordo com ele, essa quantia é suficiente para atender todos os que estão credenciados para os jogos sem deixar de atender a população.

Qualificação comprometida

Ex-integrante do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), Gisliene cobriu as Paralimpíadas de Sidney, em 2000, e coordenou a comunicação dos jogos de Atenas, em 2004. A assessora também pontua que, levando em consideração casos de atletas como Daniele, que tiveram a preparação prejudicada pelos efeitos da pandemia no país e pela falta de competições qualificatórias, a permanência do Brasil entre as 10 maiores potências do esporte paralímpico ganha ares de dúvida.

“Se você não tem competições regionais, nacionais e internacionais, como você vai se classificar para a Paralimpíada?”, questiona. “Então, o trabalho se torna muito difícil tanto para o atleta quanto para o CPB que quer se manter entre os 10 melhores do mundo, mas tem esse desafio aí [critérios de qualificação para a seleção]”, completa ela.

Em entrevista concedida ao multicampeão paralímpico de natação Clodoaldo Silva, no portal UOL, o diretor técnico do CPB, Alberto Martins, afirmou que está ciente de que o Brasil teve impactos técnicos no ranking de várias modalidades. Sobretudo, segundo ele, o órgão sempre teve que pensar nos riscos de mandar atletas para competições importantes no calendário mundial e eles serem contaminados.

Conforme explica Gisliene Hesse, melhorar a estrutura na base de formação dos atletas com deficiência é uma das metas do CBCP. O Comitê foi incluso no sistema nacional do desporto em outubro de 2020, e está se organizando para atuar no fortalecimento de clubes, associações e entidades que desenvolvem a prática paradesportiva e paralímpica por meio da ampliação das competências gerenciais, administrativas e técnicas.

Braian Bernardo

Estudante de jornalismo, apaixonado por futebol e torcedor do esporte candango.

Braian Bernardo tem 30 posts e contando. Ver todos os posts de Braian Bernardo

Avatar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *