Vídeos: atleta rompe ligamentos e fica quase três horas no chão aguardando atendimento

Competições amadoras em sua grande maioria são realizadas como forma de confraternização, colocando o divertimento coletivo como ponto alto, onde nem sempre vencer é o grande objetivo. Ainda mais em competições de categoria Master, que carregam o espírito de colaboração entre atletas. Mas para a brasilense Sofia Borges, de 42 anos, o clima de festa e comemoração terminou com muita dor e transtornos.

Na última terça-feira (12), em uma partida válida pelo XXXV Campeonato Brasileiro de Basquete Master, realizado no Rio de Janeiro, a jogadora escorregou e rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo. Sofia ficou quase três horas no chão agonizando de dor até que uma ambulância chegasse para levá-la ao hospital. O vídeo abaixo é forte:

Durante todo esse tempo, ela permaneceu sem atendimento adequado, pois a Associação de Basquete e Veteranos do Rio de Janeiro (ABVRJ), organizadora da competição, não designou uma equipe médica para ficar de prontidão no local para atender possíveis casos de lesão.

Sofia se contundiu no comecinho do jogo entre a Associação de Veteranos e Amigos do Basquetebol de Brasília (Avabra) e a equipe do Maranhão. Como não se sabia a gravidade da lesão, todos os presentes no local acharam mais prudente não tocar em Sofia, com receio de agravar o problema. Ela só foi atendida quando a jogadora do Ladies Goiás Daniela Chagas chegou ao ginásio para sua partida, que seria realizada logo após. Com autorização de Sofia, Daniela iniciou os primeiros atendimentos básicos até a chegada de uma ambulância.

Daniela é membro do corpo de bombeiros de Goiás, e com a ajuda de uma atleta da Avabra que trabalha como enfermeira, improvisou materiais para imobilizar Sofia. “Por volta de 13h30, recebemos uma dizendo que uma atleta havia se machucado. Chegamos ao ginásio às 14h50 e ela ainda estava lá, caída no chão. Com a demora da ambulância, resolvemos, com a autorização da Sofia, atendê-la para removê-la com segurança do local. Juntamente com outros voluntários, fabricamos uma tala com papelão, um colar cervical com ataduras, um par de tênis e dois pedaços de madeira”, relatou Daniela, que deu todas a orientações sobre a forma de como os voluntários deveriam carregar Sofia.

Sofia sendo levada à ambulância em uma tala improvisada, sem apoio e/ou supervisão da organização do torneio. Foto: Reprodução

Como havia muitos casos a serem atendidos pelo Corpo de Bombeiros e pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) à frente de Sofia, Daniela contou que só conseguiram uma ambulância com mais rapidez porque pediram a um policial que parasse alguma unidade que estava rodando perto do local. “Liguei para a emergência e a atendente falou que a solicitação estava na fila da devida prioridade, mas que não sabia quantas ocorrências estavam na frente. Depois de imobilizá-la, conseguimos parar uma ambulância do banco de sangue, que prontamente se colocou à disposição para levá-la ao hospital”, completou.

Estrutura precária

Não foi somente o descaso com integridade física dos atletas que incomodou Sofia durante a competição. A atleta relatou ao DF Sports+ que as instalações do ginásio da ABVRJ, onde eram realizados os jogos femininos, não ofereciam as mínimas condições para as partidas, o que, segundo ela, é algo absurdo, pois a taxa de inscrição ultrapassa os R$ 300, e com mais de mil atletas inscritos na competição, a organização teria condições de realizar um evento com melhores estruturas.

“O ginásio estava cheio de goteiras. No momento em que eu escorreguei, o chão não estava molhado, mas assim que chegamos, vimos vários panos enxugando poças d’água na quadra. As marcações das linhas foram improvisadas com fitas de fechar caixa [sic], o que oferecia muitos riscos, pois qualquer contato com aquelas fitas poderia gerar um escorregão”, revelou Sofia. “Na saída no ginásio não tinha uma passagem adequada para a minha remoção, as pessoas tiveram que me levantar por cima de uma mureta pra que eu chegasse até a ambulância”, completou.

A atleta também comentou que os locais onde os jogos da categoria masculina eram realizados tinham condições perfeitas para as partidas e contavam com equipe médica para atender os jogadores.

Sofia não recebeu nenhum tipo de suporte por parte da organização do evento. Até a última atualização dessa reportagem, ninguém da ABVRJ havia procurado Sofia para saber sobre seu estado físico ou oferecer algum tipo de ajuda.

O presidente do clube que Sofia defende, Gustavo Oliveira, também reclamou da estrutura e da falta de suporte. Ele promete fazer o que for possível para que a competição de 2020, que será realizada em Brasília, não repita os mesmos erros da edição deste ano. “As instalações do ginásio não contavam nem com água para as atletas. Quando a Sofia se machucou, procurei a ABVRJ para nos dar suporte e eles se prontificaram a ajudar, mas não me procuraram mais”, contou. “Vamos bater na porta de universidades para fechar a equipe médica, correr atrás de patrocínios e de publicidade para realizar o maior campeonato de basquete veterano já realizado pelas associações”, completou Gustavo, com entusiasmos.

Termo de renúncia

O lamentável episódio que aconteceu com Sofia tem um ponto de partida. Antes de qualquer competição nacional de basquete máster, os atletas são instruídos a assinar um termo de renúncia de direitos (fotos abaixo), que os priva de atendimentos e de qualquer direito de reclamação aos organizadores ou a Federação Brasileira de Basquetebol Máster (FBBM), caso aconteça eventuais lesões ou óbitos.

Gustavo Oliveira disse que procurou uma consultoria jurídica para entender a legitimidade deste termo, e o advogado consultado afirmou que caso a equipe recorresse, derrubaria as assinaturas do documento. A medida também vai contra o a recomendação do Conselho Federal de Medicina, que na Resolução nº 2012/13, ressalta e regulamenta a presença de médicos em eventos de qualquer natureza.

Posicionamento da ABVRJ

Em contato com o DF Sports+, o presidente da ABVRJ, Benedicto Cicero Torteli, mais conhecido por Paulista, afirmou que havia um fisioterapeuta no local para atender as atletas em todos os jogos, o que foi negado por Sofia. Segundo ela, os únicos profissionais da saúde presentes no local eram os próprios atletas.

O presidente também alegou que recebeu a informação de que Sofia teria se negado a ser atendida, pois ela queria ser amparada por profissionais de alguma rede que seu plano de saúde atendia. Entretanto, segundo a atleta, a informação não procede, e o que aconteceu foi que os colegas de time que ajudaram no atendimento sugeriram que a ambulância fosse direto a uma unidade particular, pois, assim, ela seria atendida com mais agilidade.

Mesmo com toda essa situação de negligência e falta de apoio, com uma demora de quase três horas para o atendimento chegar, Paulista acredita que o socorro foi devidamente prestado à Sofia. “Ela saiu do ginásio em uma ambulância, seja de onde essa ambulância for. O socorro foi prestado. Se teve demora, se foi com essa ou se foi com aquela, ela foi socorrida. Ou seja, ela não ficou largada no chão machucada” comentou o presidente da ABVRJ.

André Gomes

Um apaixonado por esportes (com um carinho especial por futebol, basquete, surf e skate). Defende a ideia de que, por questões éticas, todo jornalista deve revelar o time que torce.

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