Foto: Eduardo Ronque

Real Brasília de casa nova

Neste domingo uma boa novidade agitará o Campeonato Candango de 2020. O jogo entre Real Brasília x Brasiliense marcará a reinauguração do estádio Ciro Machado pra sediar partidas oficiais do clube, durante o Candangão e também o Campeonato Brasileiro Série A2 Feminino.

Ter uma “casa própria” é um sonho antigo do Real que já mandou jogos em quase todos os estádios do DF: Bezerrão, Serra do Lago, Mané Garrincha, Augustinho Lima e até mesmo Diogão em Formosa. Além de tirar a fama de “cigano”, o clube quer usar o espaço para alavancar o seu programa de sócio-torcedor e criar uma identidade com a cidade da Vila Planalto. Lembrando que a mais nova praça da cidade está a poucos quilômetros do Palácio do Planalto, Câmara dos Deputados e Senado Federal. O Presidente do clube, Luis Felipe Belmonte já havia tentado uma Parceria Público-Privada há alguns anos atrás a fim de viabilizar a reabertura do CAVE, mas não houve interesse por parte do GDF: “O Governo Federal havia liberado uma verba de R$ 7,8 milhões para arrumar o CAVE para servir de local para treinamentos para as olimpíadas (2016), mas o Governo do Distrito Federal teria que arcar com R$ 1 milhão. Na época a Leila Barros (Secretária de Esportes e hoje Senadora) fez de tudo para convencer o governador (Rodrigo Rollemberg), mas o governo não liberou a verba. Por outro lado, nós tínhamos a oportunidade de fazer um investimento grande pra recompor todo o estádio, arrumar as praças públicas ao redor. Mas veio um pessoal de esquerda dizendo que não queriam, que o CAVE é do povão. Então nós não fomos adiante” disse.

A história teve final feliz com a Vila Planalto. Com capacidade para abrigar 1.500 pessoas, o estádio Ciro Machado tem tudo o que é necessário para abrigar jogos profissionais. Para isto, foram trocados gramado, implementados sistemas de irrigação e drenagem, reformados todos os vestiários e também há espaço para imprensa e Tribuna de Honra. Tudo isso localizado em uma área privilegiada com vista para o Lago Paranoá. E para o futuro está nos planos instalar o sistema de iluminação e a construção de um campo sintético para abrigar uma escolinha de futebol: “Foi feito um investimento para que nós tivéssemos uma casa para mandar nossos jogos e também fidelizar o povo da região. Nós temos mais de 35 mil seguidores na nossa página do Facebook. É uma estrutura pequena, mas que nos atende perfeitamente” afirma o dirigente que se recusou a comentar o montante investido: “Duas coisas que aprendi na Inglaterra foi de não comentar vida pessoal nem sobre dinheiro (risos)”.

APROXIMAÇÃO

O “namoro” entre Real Brasília começou muito antes, quando Belmonte ainda era gestor do Brasília FC. Sem ter onde treinar, o Colorado decidiu utilizar as instalações precárias do estádio Defelê: “O Brasília não tinha onde treinar porque o CT não tinha campo. E o campo que nós obtivemos foi lá da Vila Planalto e a partir dali nós já começamos a ter uma identidade tanto com o local quanto com a Diretoria da Unidade de Vizinhança de lá. Mesmo depois de construirmos os campos do nosso CT, continuamos em contato até que nos estreitamos e fizemos a proposta de revitalizar o estádio. Fizemos um convênio operacional e conseguimos cumprir o que combinamos”.

O presidente do Clube Unidade Vizinhança da Vila Planalto, João Anísio dos Santos, comemorou a parceria e acredita que dará bons frutos: “A vinda do Real pra cá foi uma maravilha. Vamos reinaugurar o primeiro estádio de Brasília, aqui tem muita história. A capacidade é pequena mas vai aumentar com o tempo. E para a comunidade, a gente quer trazer as nossas crianças, ver o que é o esporte…isso é muito importante. A gente infelizmente tá aí vendo uma onda de drogas, e o projeto da Vila é bom porque pouca coisa que você fizer é muito” comemorou, lembrando que os espaços da arena seguirão à disposição dos associados durante os cinco anos da parceria.

HISTÓRIA E HOMENAGENS

O DFL (Departamento de Força e Luz) era um braço da Novacap para gerenciar a rede elétrica de Brasília que estava um gigantesco canteiro de obras. Em 1960, os funcionários das construtoras e empresas públicas presentes na nova cidade tinham apenas o futebol como diversão. Então cada uma passava o trator, colocava as traves, marcava com cal e estava pronto, mais um espaço de lazer.

Era muito comum os times levarem nomes de suas empresas, como Rabelo, COENGE, Nacional, Alvorada, Pederneiras e o próprio DFL. O nome DeFeLê foi um acrônimo inspirado no FeNeMê, famosa fabricante de caminhões da época. O Defelê teve um começo vencedor, sendo tricampeão de Brasília pela extinta Federação Desportiva de Brasília (1960, 1961 e 1962).

Defelê campeão brasiliense de 1961. Foto: Almanaque do Futebol Brasiliense

O estádio levou o nome de Ciro Machado do Espírito Santo, um engenheiro que trabalhava na DFL e gostava muito de esportes apesar de não jogar. Foi inaugurado no dia 18 de Dezembro de 1960 com um torneio entre o próprio Defelê, o Cruzeiro de Minas Gerais (com Tostão no time) e o arquirrival Rabelo. Mas a grama somente chegou ao estádio em 1968, data do último título do clube que dois anos depois encerraria as atividades. O clube teve alguns craques no elenco que fizeram história no DF, como o atacante Raimundinho, Fino, Wander Abdalla entre outros.

Raimundo Ribeiro Campos conhecido como Marreta viveu essa época e lembra com carinho a passagem que teve pelo Defelê. Cabeça de área que teve sua carreira encerrada mais cedo por lesão, Marreta foi exercer o cargo de massagista no clube: “De mês em mês a gente fazia uma seleção de Brasília e aqui na época já veio jogar Ferroviária de Araraquara-SP, Cruzeiro-MG, Ceará-CE, Moto Club-MA…as arquibancadas lotavam e hoje (domingo) vamos ter essa reinauguração, uma grande festa. O estádio está lindo, foi a mão de Deus que trouxe esse homem (Belmonte) para cá” afirmou. Marreta será um dos homenageados pelo Real Brasília antes da partida contra o Brasiliense ao lado de Alaor, Raimundinho e Leopoldo, neto de Ciro Machado.

Real Brasília e Brasiliense se enfrentam neste domingo às 15:30. Ambos os canais oficiais dos clubes prometem transmitir a partida ao vivo.

Marcelo Gonçalo

Formado em Sistemas de Informação, optou pela carreira de Jornalismo a partir de 2008. Jornalista, comentarista e narrador esportivo, foi o principal repórter do site BloGama até 2018.

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Um comentário em “Real Brasília de casa nova

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    4 de março de 2020 em 16:26
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    É esse o clima 💯💖 com carinho e respeito por esses que fizeram demaziadamente demais pelos futebolistas do nossa Brasília e Brasil, só tenho um gesto só gratidão 👏

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