Umas com tanto, outras sem nada: conheça os extremos do futebol feminino do Distrito Federal

Por Camila Bairros e Natália Pires

Acordar cedo, ir à escola, faculdade ou trabalho e passar o dia longe de casa. Para treinar, pegar mais um ônibus – o terceiro, quarto, quinto do dia – chegar atrasada e mal alimentada. Equipamento? Pouco. Água? Por muitas vezes moderada. Local de treino? Qualquer espaço aberto que, por ser público, acaba sendo limitado e dividido com outras pessoas. Essa é a realidade de muitas atletas do Campeonato Candango de Futebol Feminino Feminino. Por outro lado…

…amanhecer na residência alugada pelo clube (no caso de quem vem de fora de Brasília ou mora muito longe), treinar na academia e depois no gramado verde e bem cuidado, ir à faculdade e depois retornar para casa ou para o alojamento. Essa é a rotina de outras jogadoras do futebol local. Ao longo deste texto, você, leitor, vai perceber que, no futebol feminino no DF, poucos têm muita estrutura, e muitos não têm quase nada.

O que explica tantas goleadas?

31 x 0, 16 x 1, 9 x 0, 21 x 0, 5 x 0, 19 x 0 e 20 x 0. Em sete jogos, o Paranoá perdeu sete vezes. A autora do único gol do Paranoá no Candangão Feminino é a jovem Sara, de 15 anos, estudante do nono ano do ensino fundamental e moradora do Café Sem Troco, núcleo rural da região administrativa do Paranoá-DF, localizado a pouco menos de 60 quilômetros do Plano Piloto. “Eu jogo desde pequena. Antes, jogava com a minha irmã. Depois, atuei nos campeonatos da escola”, conta a adolescente. “Quero ser profissional. Me inspiro na Cristiane, a atacante da Seleção”, sonha.

Perguntada sobre salários e/ou auxílios, Sara responde:

“A gente não recebe nenhuma ajuda, não. Só se contar o dinheiro que a comissão técnica nos dá para pegar o transporte. É difícil. A gente vem porque ama jogar, sonha em fazer isso pro resto da vida.”

Sara, atleta do Paranoá

Na soma, 121 gols sofridos contra apenas um marcado. O número choca e intriga: como um time pode ser tão vazado?

Na equipe feminina do Santa Maria, as goleadas também marcaram a performance da equipe no campeonato. O time foi derrotado por Cresspom (7 x 0), Minas Icesp (5 x 0), Real FC (9 x 0), Ceilândia (4 x 0) e Brazlândia/As Minas, time cujo elenco é, na verdade, o time sub-18 do Minas Icesp (4 x 1). Porém, há um ponto interessante: além de bater o Estrelinha por 5 x 0, o Santinha venceu o Paranoá por 9 x 0, placar mencionado anteriormente.

Por que no futebol masculino não há placares tão elásticos? Talvez as dificuldades enfrentadas pelas atletas responda a estas e outras perguntas.

Cinco chuteiras

Quando se fala em futebol, o equipamento mais importante depois da bola é a chuteira. Uma, duas, três, quatro… cinco. Cinco é a quantidade de atletas do Paranoá com os pés devidamente calçados no treino da equipe que o DF Sports+ acompanhou. As jovens treinam em um campo sintético de área pública e têm que dividir o espaço com homens de um clube amador da cidade. Amador, mas com muito mais equipamentos à disposição.

Ao fundo, homens dividem a quadra com as atletas do Paranoá. Foto: Camila Bairros/DF Sports+

A água é moderada. Existe horário delimitado e quantidade certa para beber, que é para não faltar para ninguém, já que a própria comissão técnica leva o galão. Lanche? Só em casa.

Segundo o diretor de relações institucionais do Paranoá, Chiquinho, o clube está na missão de resgatar as categorias de base. “Fomos vice-campeões do Candangão Feminino em 2004, mas, na época, com as mudanças na diretoria, o projeto não teve continuidade”, explica.

Rotina e salário

Ser jogadora de futebol é um trabalho como qualquer outro. Há uma rotina de treinos, alimentação e preparação física a ser seguida. Isso demanda tempo e esforço, tanto dos atletas quanto da comissão técnica. Entretanto, quando o assunto é futebol feminino no Distrito Federal, a precariedade toma conta de algumas das equipes.

Com atletas entre 14 e 30 anos, os treinos do Santa Maria, outro clube do Distrito Federal que disputa o Candangão Feminino, acontecem no período da noite. Estudar, trabalhar, cuidar da casa e dos filhos e, no fim do dia, tirar forças de si mesma para ir treinar é a rotina da menina e da mulher que entra em campo aos finais de semana com a camisa grená da equipe — longe dos hábitos ideais de um atleta de alta performance. Salário? No DF e em vários estados do país, é privilégio para poucos clubes.

Mesmo com todas as dificuldades, desistir não parece uma opção para o atual elenco do Santa Maria. Foto: Camila Bairros/DF Sports+

60 km diários

Muitas das atletas do time do Paranoá não moram na cidade do Paranoá-DF, mas sim em núcleos rurais como Café Sem Troco e Marajó. Para treinar, elas precisam fazer um trajeto que, de ônibus, chega a duas horas. Além de não possuir todo o material de treino, o time feminino ainda divide o espaço com o masculino.

“As meninas viajam entre 50 e 60 quilômetros para vir treinar. Temos que dar a importância devida pra isso. Elas são muito empenhadas, saem direto da escola ou do trabalho, ficam muito tempo no transporte pra chegar aqui, treinam e depois ainda precisam voltar o caminho todo, tomar banho, comer, dormir e começar tudo de novo”, conta o treinador do time, Raimundo Martins.

Ver o futebol como trabalho ainda não é possível para as atletas do Paranoá, do Santa Maria e de tantas outras espalhadas pelo Brasil. O que as faz continuar depois de goleadas, críticas e torrentes de preconceito, com uma rotina difícil de bônus, é o amor pelo esporte. Exemplo disso é a jovem jogadora do Paranoá, Ester Samara. “É um esporte muito difícil, ainda mais para nós mulheres. [O futebol feminino] ainda é menosprezado por causa do preconceito das pessoas”, afirma.

Eu gosto mesmo de futebol. Vou contra até mesmo meus pais, que não apoiam muito, mas é o que eu gosto de fazer.

Ester Samara, atleta do Paranoá

Outra realidade

Como dito no início do texto, algumas equipes, mesmo que poucas, usufruem de ótimas condições, se comparadas a Paranoá e Santa Maria, por exemplo. Duas delas são o Real FC e o Minas Icesp. As atletas d’As Minas e do Leão do Planalto dispõem de alojamento, residência, campos adequados, alimentação balanceada, transporte e até auxílio nos estudos – este último no caso do Minas. Abaixo, você perceberá a disparidade.

Para começar, o Minas Icesp e o Real FC tratam as atletas que moram longe de forma bem diferente. O Minas disponibiliza uma casa só para as jogadoras, enquanto o Leão do Planalto paga quartos de hotel para o elenco. O Real ainda disponibiliza um ônibus para levar as atletas ao Centro de Treinamento e voltar para o lar.

Uniforme para treinar, chuteira de qualidade no pé, gramado bem cuidado e equipamentos para a comissão técnica trabalhar. Parece besteira, mas faz toda a diferença. Foto: Camila Bairros/DF Sports+

O Minas possui um trabalho de base – algo que não passa de sonho em outros clubes. Quando a comissão técnica sente que as jovens estão, enfim, preparadas, elas são promovidas para a equipe principal, passando a disputar grandes torneios, como o Campeonato Brasileiro. “O trabalho está sendo feito. O objetivo em 2018 era ganhar a Série A2 e conseguimos. Em 2019, o foco estava em se manter na Série A1 e conseguimos de novo. Foi difícil, mas agora que a gente já sabe como funciona, podemos almejar ficar entre os oito primeiros colocados na próxima temporada”, conta o treinador do time profissional, Singo Santos.

Nada de água moderada

No Minas Icesp, os equipamentos básicos são todos fornecidos pelo clube, desde o uniforme de treino ao lanche dos intervalos. Água? À vontade, o filtro fica na beira do gramado. Por falar em gramado, o campo é pertencente ao patrocinador master, o Minas Brasília Tênis Clube, clube social localizado no Setor de Clubes Norte, Brasília-DF.

Atletas do Minas no campo do Minas Brasília Tênis Clube. Foto: Eduardo Ronque/Minas Icesp

Chegando ao centro de treinamento do Real FC, localizado no Park Way-DF, vê-se mais um clube com estrutura completa. A começar pelo vestiário, com duchas de água quente, maca para fisioterapia, banheira de hidromassagem, banheira de gelo, cabines de repartição com a foto de cada atleta e a sala do roupeiro.

Em frente ao campo no qual as atletas treinam, um novo gramado está sendo cuidado para se tornar o local de uma escolinha que vai recrutar crianças a partir de oito anos. Seguindo adiante, há um prédio sendo reformado para abrigar uma nova academia e um espaço maior de fisioterapia.

No campo de treinamento tem água, chá mate, café, banana e melancia. Tudo para os atletas e comissão técnica. Enquanto o treino não começa, um bate-bola aqui e futmesa ali, enquanto esperam os meninos do sub-15 saírem do campo. O alojamento dentro do CT é destinado apenas ao time masculino, mas tanto o refeitório quanto a área de lazer (que conta com piscina, churrasqueira, mesa de pingue-pongue e sinuca) são de uso coletivo.

No fim das contas, as atletas, que têm em média 22 anos, só se preocupam em treinar e manter o condicionamento físico ideal. Diferentemente de jogadoras de outros clubes de Brasília e do Brasil, elas ganham salário – e recebem em dia!

Ônibus do Real FC, uma das provas da boa estrutura do clube. O Leão do Planalto é um dos poucos que dispõem de ônibus para atletas e comissão técnica. Foto: José Antônio Gama

Meia da equipe, Sabrina Santos já passou por times tradicionais do país, como Santos e Portuguesa. Sassá, como é conhecida, conta que, no Real, não há diferença de tratamento entre as equipes masculina e feminina. “A estrutura aqui é completamente diferente dos times que já passei, o apoio que eles dão para a gente é fenomenal. Eles priorizam tanto o masculino quanto o feminino, não há diferença nenhuma, e isso me deixa bastante feliz”, comenta Sassá.

Patrocínios

Por muitas vezes, o torcedor que demonstra amor por grandes clubes nacionais e internacionais prefere a beleza natural da camisa do seu time do coração sem aqueles patrocínios chamativos de cores laranja, amarelo-neon, verde-limão, entre outras. Ele, no entanto, não tem ideia da diferença que uma marca estampada, por mais feia que seja, faria na camisa de clubes como Paranoá e Santa Maria. Reconhecimento, valorização e quebra de preconceitos são as palavras que antecedem a realização desse sonho, que já é realidade para algumas.

Além do Minas Tênis Clube, o Minas Icesp conta com patrocínio da academia Smart Fit, local onde as atletas malham. Além disso, o Centro Universitário Icesp fornece bolsas de estudo a elas. A diretoria, no entanto, não para, e outras parcerias estão sendo fechadas.

O Real FC, por sua vez, conta com todo o apoio e suporte fornecido pelo presidente do clube, Felipe Belmonte. “O Real FC é um projeto que nós estamos desenvolvendo em busca de lazer, de possibilitar a realização de sonhos e de melhorar o futebol na capital, esse é o nosso objetivo”, relata Belmonte.

O Candangão Feminino está chegando na reta final. No próximo domingo (17), iniciam-se as semifinais, nas quais estão Real FC, Minas Icesp, Cresspom e Ceilândia. As atletas de Paranoá, Santa Maria e Estrelinha seguem treinando pontualmente, com esperança de ver todo o cenário mudar para melhor. Talvez um dia as goleadas, resultados de inúmeros problemas relatados nesta reportagem — e seria impossível listar todos eles — deixem de ser realidade e as partidas sejam disputadas de igual para igual.

Curtiu a leitura? No mini documentário abaixo, sintetizamos um pouco dos fatores citados na reportagem Assista:

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