Memórias do Candangão: o último reinado alviverde

Em semana de mais uma decisão de campeonato local no Distrito Federal, para o torcedor da Sociedade Esportiva do Gama, é inevitável relembrar o passado glorioso do clube. Em 2018, o Periquito, mais uma vez, ficou nas quartas de final e foi eliminado em casa, diante de sua fiel torcida. A última conquista gamense foi no não tão distante ano de 2015, quando o time levantou a taça diante do Brasília. No ano seguinte, o “Gamão” chegou na decisão da Copa Verde e fez campanha decente na Copa do Brasil, além do Campeonato Brasileiro da Série D. Porém, a reação do clube, que desde 2003 não conquistava títulos, parou por ai.

Por falar em 2003, é para lá que o “Memórias” de hoje vai viajar. Voltaremos no tempo para contar a história do último ano de reinado do Gama, tempo em que o clube conquistou nove de seus onze títulos. Tempo em que o time do Bezerrão era o soberano do Distrito Federal.

O último reinado alviverde

Para o apaixonado torcedor do alviverde, falar de 2003 é fácil. Mais que isso, relembrar o passado glorioso do clube é algo que dá prazer a seus torcedores. Afinal de contas, são onze títulos estaduais, quatro anos seguidos na Série A do Brasileirão e muita história para contar, sem falar nos grandes craques revelados pelas categorias de base da equipe.

Para começar a contar a história do Candangão de 2003, precisamos voltar um pouco mais no tempo. O Gama, fundado em 1975, não demorou para conquistar sua primeira taça estadual e, muito menos, para cair no gosto popular da cidade. Porém, apenas quinze anos após sua fundação é que o clube se tornaria o gigante que hoje conhecemos e passaria a dominar o futebol local. Entre 1990, ano dos segundo título e 2003, do décimo, o Gama foi campeão em nove oportunidades. Cinco delas seguidas, entre os anos de 97-2001.

Em 2002, um timaço do CFZ-DF, montado por Reinaldo Gueldini, impediu que o Periquito mantivesse a sequência imbatível, coisa que nem o endinheirado Brasiliense tinha conseguido até então. Em 2003, no entanto, o Gama voltou a se impor no cenário local. Mal sabia sua apaixonada torcida que aquela seria, até os dias de hoje, a última vez.

O Candangão de 2003 foi, sem dúvida alguma, um dos mais disputados até hoje. Além do Gama, recém-rebaixado da Série A após quatro temporadas, o CFZ-DF, campeão um ano antes, tinha mantido a base do time. Para aumentar ainda mais a dificuldade, o Brasiliense tinha feito também em 2002 uma Copa Do Brasil quase perfeita, chegando a final, o que tornou o time conhecido no Brasil inteiro. Com o dinheiro de seu dono, o ex-senador Luiz Estevão e a fama de ter derrubado gigantes, o Jacaré, à época um aspirante a arquirrival, começou a atrair grandes jogadores.

Naquele ano, além dos já conhecidos Wellington Dias, Donizeti e Tiano, o Jacaré trouxe alguns nomes de peso, como o do zagueiro Gérson, ex-Gama e o matador Túlio Maravilha. Isso sem falar nos times menores, como o Bandeirante, que sempre apresentavam bons elencos e costumavam complicar a vida dos seus adversários.

Com o cenário todo armado, a bola então começou a rolar. Nas primeiras rodadas, o CFZ-DF logo despontava como favorito à conquista, tendo marcado 22 gols em quatro jogos. Uma marca impecável. Dez desses gols foram marcados em uma vitória sobre o Sobradinho, numa partida que terminou em 10 x 1. Outros cinco contra o Bandeirante, num 5 x 2 para o time do Zico.

Enquanto isso, o Gama também fazia seu papel para tentar retornar ao topo, mesmo tendo tropeçado algumas vezes na Primeira Fase, como quando empatou com a ARUC, Unaí e com o Bandeirante. Mesmo com esses três empates, o Periquito terminou a Primeira Fase na liderança, à frente de Brasiliense e CFZ-DF, também favoritos.

Humilhando os futuros rivais

Assim como em 2018, o primeiro adversário da Segunda Fase (semifinal) foi o Luziânia. Como de praxe, os goianos não deram vida fácil ao Gama. O alviverde até conseguiu uma magra vitória no Serra do Lago no jogo de ida, quando venceu por 1 x 0. Porém, no jogo de volta, o Azulino quase estragou a festa e a partida no Bezerrão terminou em 2 x 2, com o alviverde classificado para a grande decisão.

Decisão esta que o time teria pela frente novamente o Brasiliense. Os dois já tinham decidido o campeonato em 2001, com o Gama levando a melhor e vencendo os dois jogos. Dois anos depois, o rival com certeza viria mordido e tinha um time mais forte, capaz de finalmente conquistar seu primeiro título. Na partida de ida, no estádio Serejão, Goeber abriu o placar a favor do Gama, mas o Brasiliense empatou com Túlio, num gol polêmico, em que o atacante amarelo teria ajeitado a bola com o braço antes de concluir para o gol.

Com o empate conquistado fora de casa, o Gama foi para a decisão no Bezerrão com a vantagem, mas parecia que nem precisava. Num daqueles dias em que tudo dá certo, o time não tomou conhecimento do Brasiliense e atropelou o time adversário com um sonoro placar de 4 x 1. Nen, Leonardo Manzi duas vezes e Rodriguinho marcaram os gols daquele histórico 23 de março de 2003. Há pouco mais de 15 anos atrás, o torcedor alviverde comemorava seu penúltimo título estadual em cima de um badalado Brasiliense.

O surgimento do CLÁSSICO

E por falar em Brasiliense, foi ali, no dia 23 de Março, que o dono do time amarelo, Luiz Estevão, passou a ter como meta pessoal “acabar” com a Sociedade Esportiva do Gama e transformar o Brasiliense na maior e única potência do futebol do Distrito Federal. Na partida de ida, no antigo Bezerrão, o ex-senador mandou construir uma espécie de palanque de madeira para, sozinho, acompanhar a partida, fato que incomodou muito a diretoria do Gama. No jogo de volta, após a goleada, o então presidente do Periquito, Wagner Marques, comemorou esnobando o próprio Luiz Estevão e o Brasiliense, mal sabendo ele que iniciaria o estopim de uma das maiores rivalidades do futebol nacional.

Daquele dia em diante, o Brasiliense contratou nomes de ponta, tirou jogadores do Gama e de vários outros clubes locais e emendou uma sequência de seis títulos seguidos, alguns vencendo o agora “arqui-inimigo” verde. Depois de levantar mais três taças, o Jacaré encostou e agora são nove títulos contra 11 do Gama. O pior de tudo é que, enquanto o Brasiliense se firmava como um time nacional, o Gama foi acumulando dificuldades para se manter nas divisões nacionais, até ficar de fora delas completamente, retornando apenas em 2015.

Nem os Gamenses mais pessimistas, que tanto comemoraram a conquista de 2003, poderiam imaginar que o clube chegaria onde chegou nos anos atuais. Além de ser destronado, viu o surgimento de um rival poderoso que dominou o cenário enquanto o time perdia as forças. A torcida, fiel, nunca abandonou o time e se orgulha disso. Ano após ano, Gamenses apaixonados enchem as arquibancadas do Bezerrão na esperança de que dias melhores, como os de 2003, irão voltar a acontecer. Sonho distante? Talvez. Mas para uma torcida que sofre há 15 anos, acreditar que tudo aquilo pode se tornar realidade novamente não é impossível. Para os Gamenses, voltar a reinar soberano do Distrito Federal e destronar o Brasiliense é mais do que simplesmente uma questão esportiva. É uma questão de honra!

Por Pedro Breganholi

Marcelo Gonçalo

Formado em Sistemas de Informação, optou pela carreira de Jornalismo a partir de 2008. Jornalista, comentarista e narrador esportivo, foi o principal repórter do site BloGama até 2018.

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2 comentários em “Memórias do Candangão: o último reinado alviverde

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    3 de abril de 2018 em 10:43
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    Adorei ler essa matéria e conhecer mais do futebol Candango.

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    3 de abril de 2018 em 23:17
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    Que linda matéria. Eu vivi essa fase do último reinado do Gama e ascensão do Brasiliense. Estava nos dois jogos dessa final de 2003. Ainda garoto, nos 4×1 da volta no Bezerrão, vi uma massa verde que ao mesmo tempo que me assustava me arrepiava. É uma nostalgia que não tem descrição. Hoje vivemos na saudade e na esperança de que o combalido candangão volte aos tempos de glória e, por que não? Que o Gama volte a representar a grandeza que possui.

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